Querido,
quando você se olha no espelho, o que vê? Você acha que pode ter várias imagens, e que cada uma delas corresponde a um período do dia, repetindo-se com certa displicência hoje e amanhã e depois? Ou que elas são direta e unicamente ligadas ao momento em que sua vida está encaixada quando você procura o seu duplo invertido? Ele então tem também personalidade? Humores? Vícios?
E quem é ele? Essa pessoa que, para olhar para si, precisa olhar para fora? Você não tem a estranha sensação de que, quanto mais olha em seus próprios olhos, mais distante fica de você mesmo? Seu olhar como imagem refletida torna-se objeto, anulando todo o mistério de vida que poderia passar pelo filtro das retinas.
E a vaidade? Quando você busca o seu próprio olhar, não tenta desfigurar o menos possível o rosto que o carrega? O corpo que carrega o rosto? Não acaba por existir um olhar viciado e analítico, que atinge a autopiedade e faz com que a compreensão seja meramente formal? Quanto tempo você pode encarar sua imagem no espelho e resistir a um sorriso, a uma sedução, pequena que seja, que te dê o gosto do respeito alheio, de que alguém presta atenção em você, te olha e percebe? Quanto tempo antes de se convencer de que não está sozinho, apesar desse olhar preocupado que te olhou nos olhos e desviou pro vermelho da boca, tímido, incomodado? Quanto tempo antes da tristeza e do medo ficarem presos lá do outro lado do espelho, e você enxergar a vida de maneira virtual, um reflexo de coisas que às vezes dão errado mas que, de tão impalpáveis, não são culpa sua? Você para, olha, tenta sorrir, e num primeiro momento vê apenas uma imagem frágil, objeto invertido do que você acredita ser. E é lá que se reconhece como um estranho. E é lá que você desvia o olhar para o vermelho de seus lábios. Porque se ficar provado que você não se conhece… então o seu mundo todo é apreendido por seus olhos que estão fechados. Aí você pisca. Ela pisca também, ao contrário. Você sorri, ela sorri de volta. É a comunhão, que vem como consolo, companhia. Mas que só está lá quando você também está. Mas lá é lá do outro lado, lado da impotência, da impossibilidade.
Do outro lado do espelho não se pode fazer nada.